Posicionamento político das big techs: o que a Amazônia tem a ver?

De repente, os gigantes da tecnologia – aqueles que controlam o que vemos, lemos e ouvimos online – decidiram mergulhar de cabeça na política. Mas o que essa guinada, com forte tendência à direita, tem a ver com a floresta amazônica e com o futuro do Brasil? A resposta é: mais do que você pode imaginar.

Pense no seu celular. Ele é a porta de entrada para um mundo de informações, mas também para um complexo jogo de poder. As empresas por trás das redes sociais e aplicativos que usamos – as chamadas big techs, notadamente americanas – não são mais apenas empresas de tecnologia.

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Elas tornaram-se forças políticas e econômicas colossais, capazes de influenciar eleições, moldar opiniões, governar subjetividades e ditar os rumos de países inteiros, modelando, inclusive, a geopolítica da inteligência artificial – a exemplo do pedido da OpenAI para o governo dos EUA banir o DeepSeek, um dos seus rivais.

Esse realinhamento ideológico das big techs não é uma coincidência. Pelo contrário, intensificou-se sob a administração atual dos EUA, que enxerga a tecnologia – especialmente a IA e a neurotecnologia – como uma ferramenta essencial para ampliar sua influência global, assim como a indústria cultural atuou na disseminação da venda do american dream no passado.

O resultado é um cenário no qual países, organizações e indivíduos são reduzidos a consumidores passivos, sem qualquer participação significativa no desenvolvimento e na aplicação de tecnologias emergentes.

A própria retórica do governo americano explicita essa visão. Durante o IA Summit de Paris, o vice-presidente dos EUA declarou que a expectativa é que os países parceiros priorizem a “inovação” – ou seja, a adoção da tecnologia americana – em detrimento dos “direitos e garantias” na era da IA. Não por acaso, a União Europeia, que vinha debatendo a regulação da responsabilidade civil nesses casos de IA, acabou retirando o tema da pauta.

Cada vez mais surgem indícios – explícitos ou sutis – de que as plataformas, especialmente as redes sociais, estão se alinhando a discursos da direita e até mesmo da extrema-direita, em compasso com a administração norte-americana atual. 

Sinais em alusão ao nazismo, pedidos de abrandamento da questão de Hitler na Alemanha, eliminação de medidas de segurança com relação à moderação de conteúdo do Instagram e Facebook, políticas de supressão da valorização da diversidade anteriormente estabelecidas no grupo Meta, rodadas de entrevistas para meios de imprensa de direita, centro e extrema direita, além de outras questões, apontam para uma conduta política das plataformas que deveria ser, em princípio – e por princípio – neutra.

Em um mundo ideal, a neutralidade nesses arranjos garantiria o exercício pleno dos direitos fundamentais. No mundo real, porém, esse discurso tem mudado de rumo, especialmente nos últimos meses, e parece estar promovendo justamente o que pretendia evitar: falta de segurança na rede, desinformação, discursos de ódio e outros fenômenos que minam a integridade do espaço digital.

O conceito de neutralidade passou, então, a englobar atitudes e discursos que antes eram amplamente considerados ofensivos ou problemáticos para o bom convívio online e para a própria democracia. Ao invés de servir como um princípio regulador, a neutralidade se tornou um instrumento de conveniência política, manipulável conforme interesses estratégicos.

Os cargos políticos de Elon Musk e o alinhamento explícito de Mark Zuckerberg e Jeff Bezos – ambos com assentos garantidos na posse presidencial de Trump – reforçam que a neutralidade, hoje, não passa de um discurso vazio.

A prova disso foi a reviravolta em torno do TikTok, antes tratado como um vilão nos EUA e até banido do país. Em menos de 24 horas, a plataforma foi restaurada, acompanhada de uma mensagem de agradecimento ao presidente americano. Não se tratou de uma concessão gratuita: a reversão foi resultado de negociações estratégicas, garantindo que essa mensagem fosse exibida a centenas de milhões de americanos – em especial os mais jovens –, transformando a plataforma em um canal de apoio político altamente influente.

Mas vai além disso.

Que nossa subjetividade – afetos, percepção da realidade, informações, relacionamentos – é moldada por meios tecnológicos, já não há mais dúvidas. Tudo o que vemos, consumimos e entendemos como entretenimento é mediado por decisões automatizadas, baseadas em perfis cuidadosamente construídos pelas próprias plataformas.

O resultado é uma modulação de comportamento cada vez mais sofisticada e eficaz, que politiza a economia da atenção, algo que já era perceptível desde os escândalos da Cambridge Analytica. Não por acaso, algumas plataformas deliberadamente evitaram exibir ou dificultaram o acesso a conteúdos políticos desfavoráveis a Trump durante as eleições.

Nesse contexto, um aspecto ainda mais preocupante ganha destaque: o avanço das neurotecnologias acopladas à IA, como o Neuralink e os projetos de leitura de pensamento do grupo Meta. Essas inovações indicam que nem mesmo nosso fórum internum – pensamentos, emoções, atividade cerebral – está imune ao controle digital. Se a mente humana já foi considerada o último reduto da liberdade, o futuro nos confronta com um desafio ainda mais profundo: até onde vai o domínio das plataformas sobre a própria consciência humana?

Outra inovação que afeta diretamente nossa percepção é a introdução de agentes artificiais nas redes sociais, perfis automatizados que se passam por usuários reais, acumulam centenas de milhares de seguidores e disseminam ideias. A lógica desses agentes se baseia na amplificação emocional: discursos carregados de paixão se espalham com mais facilidade, tornando-se um motor tanto para a manipulação de pautas políticas quanto para a monetização da polarização.

O questionamento inevitável, portanto, não é apenas sobre os efeitos desse fenômeno, mas sobre o fato de ele estar sendo operado por plataformas alinhadas à direita e extrema direita, engajadas em projetos políticos de poder. O influenciador Matheus Sodré, em um vídeo que viralizou no TikTok, lançou a provocação certeira:

Será que ainda temos discernimento para rejeitar o que nos é apresentado, ou já nos rendemos à lógica dos algoritmos?

Temos, de fato, consciência da alteração invisível no fluxo de informações que restringe a diversidade de perspectivas, ou simplesmente nos tornamos cada vez mais blindados a críticas e opiniões contraditórias, sem perceber que as informações exibidas são deliberadamente limitadas?

As redes sociais não apenas formam nossa visão de mundo, mas também moldam nossa percepção política – e, nesse processo, definem quais questões ganham destaque e quais são silenciadas. Esse fenômeno tem implicações profundas, especialmente em temas de interesse coletivo, como o meio ambiente. A política, afinal, não está dissociada das questões ambientais, e a forma como interagimos com a informação pode determinar o que consideramos relevante, urgente ou até mesmo real.

Quando os algoritmos privilegiam determinadas narrativas e restringem outras, criam um efeito de bolha, no qual não apenas perdemos contato com visões divergentes, mas também nos afastamos de debates fundamentais. Isso significa que, sem perceber, podemos estar sendo guiados para um espaço onde a ação política e a mobilização coletiva são enfraquecidas, enquanto interesses econômicos e ideológicos específicos são reforçados.

Isso nos leva à segunda indagação: qual a relação disso tudo com as questões ambientais no Brasil e, em especial, a Amazônia?

Para compreender essa conexão, é essencial revisitar alguns acontecimentos recentes. Trump anunciou uma ordem executiva contra os canudos de papel, restabelecendo os canudos de plástico em uma decisão que vai na contramão das tendências globais de redução de plásticos descartáveis. Esse gesto, aparentemente banal, sinaliza um padrão maior de desregulamentação ambiental em favor de interesses corporativos, inclusive da indústria do petróleo, que não estão alinhados às pautas climáticas mais urgentes.

Essa agenda não é isolada. Segundo o The Guardian, o governo Trump determinou que gestores do Departamento de Agricultura dos EUA identificassem, arquivassem ou removessem todas as páginas voltadas para mudanças climáticas, além de dizimar proteções relacionadas. Como consequência, conteúdos fundamentais foram retirados do ar, incluindo informações disponibilizadas pelo Serviço Florestal dos EUA sobre vulnerabilidade a incêndios florestais e adaptação climática.

Outra ponto que merece destaque é o plano da administração norte-americana de utilizar a Agência de Proteção Ambiental (EPA) para impulsionar a IA, o que levanta sérias preocupações ambientais e econômicas. A agência propôs a flexibilização de regulamentações que exigiam a redução das emissões de gases de efeito estufa por parte das empresas de energia. Essa mudança abre caminho para que usinas a carvão continuem operando sem tecnologias de captura de carbono, agravando a emissão de CO e intensificando os impactos climáticos.

Isso é agravado pelo crescimento acelerado da IA, a qual demanda uma infraestrutura energética de grandes proporções, exigindo a expansão dos centros de dados, que consomem enormes quantidades de eletricidade e água para resfriamento.

A pressão sobre a rede elétrica pode não apenas elevar os custos da energia para os consumidores, mas também aprofundar a dependência de combustíveis fósseis, reforçando um ciclo de desregulamentação que beneficia grandes corporações em detrimento do meio ambiente e das populações mais vulneráveis.

Esse cenário evidencia que, enquanto as grandes potências flexibilizam regulações ambientais para favorecer setores econômicos estratégicos, os países do Sul Global, como o Brasil, suportam o peso desproporcional das consequências climáticas e enfrentam obstáculos para defender seus próprios recursos naturais diante de uma possível pressão geopolítica e econômica imposta pelo Norte.

A influência das tecnologias oriundas do Norte Global, ao chegarem à Amazônia brasileira, torna-se ainda mais lesiva, pois não considera a complexidade socioambiental e cultural do território. Sob a justificativa de auxílio financeiro e parcerias para o desenvolvimento sustentável, alguns países do Norte realizam repasses que, na prática, perpetuam a exploração dos recursos naturais da região, ou então agem sob diferentes formas de pressão e jogos de interesses, assegurando o suprimento necessário para a manutenção da cadeia tecnológica, incluindo a produção de IA e semicondutores.

No entanto, essa exploração não ocorre sem profundas consequências socioambientais.

A atividade mineral na Amazônia, por exemplo, que, muitas vezes, é conduzida à margem da legalidade, gera impactos ambientais devastadores, como o desmatamento, contaminação de rios e perda de biodiversidade. Isso, aliado à essa exploração, intensifica conflitos territoriais com povos indígenas e comunidades tradicionais, que têm sua existência, cultura e modos de vida diretamente ligados ao território.

Esses grupos se veem, logo, submetidos à degradação ambiental e à violação sistemática de seus direitos territoriais e culturais, enquanto o discurso do desenvolvimento tecnológico e econômico é utilizado como justificativa para a continuidade desse modelo predatório de exploração.

Nesse contexto, vale resgatar o alerta do Centro Popular de Comunicação e Audiovisual (CPA) e da Coalizão Tecnopolíticas Pan-Amazônicas no que tange à atuação das Big Techs, em sua carta de recomendações para políticas digitais na Amazônia.

Nesse documento, destacam “a necessidade de compreender como a produção tecnológica no Norte Global e o descarte inadequado de resíduos em países africanos perpetuam formas contemporâneas de colonização, incluindo a extração de minérios na Amazônia. Torna-se, portanto, imprescindível a análise do papel do Brasil nesse contexto. Para garantir a proteção da Amazônia tanto no âmbito digital quanto no físico, é essencial o desenvolvimento de estratégias coletivas de resistência e defesa diante desses desafios interconectados”.

Não é mais exatamente uma novidade, portanto, que as big techs tenham internalizado seu papel estratégico na consolidação da hegemonia cultural, econômica e tecnológica dos Estados Unidos. Chanceladas e alinhadas ao projeto de poder de Trump, essas corporações asseguram para si um estatuto de intocabilidade política e jurídica, operando sob a proteção de um governo que, embora legitimado pelo voto, reforça uma dinâmica imperialista digital e de degradação ambiental disfarçada de defesa da liberdade de expressão.

Para garantir a proteção da Amazônia, tanto no âmbito digital quanto físico, é essencial o desenvolvimento de estratégias coletivas de resistência e defesa. Isso exige não apenas uma regulamentação mais robusta, mas também a construção de alternativas tecnológicas sustentáveis, que respeitem os direitos dos povos originários e protejam os recursos estratégicos da região diante da crescente pressão do mercado global.

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