Advogando sem fronteiras

Durante a faculdade de Direito, aprendemos sobre como as leis e interpretações jurídicas de determinados fatos acompanham (ou ao menos tentam acompanhar) o contexto histórico no qual eles ocorrem. Todavia, acredito que somente após graduados e atuando é que realizamos que poucas carreiras são tão profundamente ligadas à cultura, à política e ao comportamento humano quanto a advocacia.

O desafio de um advogado global não é apenas interpretar códigos e regulamentos, o que ele faz com base na sua própria visão de mundo, valendo-se do conhecimento jurídico aprendido ou experimentado na prática, no seu contexto histórico, e no seu território de atuação. Mas, quando se atua em múltiplos países, o desafio se torna uma verdadeira missão ainda mais complexa, trabalhosa – e fascinante.

Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas

É essa a experiência que tenho vivenciado intensamente nos últimos anos, apoiando negócios em mercados da Europa Central e Oriental, além de países de baixa e média renda, também chamados de LMICs (low-middle income countries).

Se lidar com diferentes legislações locais, e diferentes entendimentos doutrinários e jurisprudenciais dentro de um mesmo país – como é o caso do Brasil – já é um desafio por si só, imagine fazer isso em cenários de instabilidade política, guerras, economias frágeis e lutas civis por direitos democráticos em pleno 2025. Sim, em pleno 2025.

A primeira vez que refleti sobre isso, imaginei: “Nossa, para atuar nesses mercados deve ser necessário um “intensivão” sobre todas as leis e normas de cada país”. Mas, eis a resposta: soft skills, empatia e a coragem de admitir que, às vezes (ou muitas delas), é preciso pedir ajuda.

Em um ambiente globalizado, onde fusos horários se sobrepõem e sotaques misturam-se em chamadas de vídeo, um advogado global precisa ser mais do que um especialista técnico. Ele precisa ser um comunicador nato, capaz de transitar entre culturas e estilos de negociação sem perder a essência do que realmente importa: as pessoas.

Acredito que as melhores soluções jurídicas não surgem apenas do conhecimento jurídico formal, mas da capacidade de ouvir ativamente, compreender diferentes perspectivas, culturas, história e, por que não, geografias, e especialmente saber quando envolver especialistas locais.

Trabalhar com mercados que enfrentam, por exemplo, sanções internacionais em razão de guerra ou conflitos, ou cenários de alta instabilidade política ou ética, sob culturas tão fortes e diferentes da nossa que se impõem como verdadeiras leis, submetem o advogado global a uma pressão completamente diferente, uma vez que até mesmo a noção de “bom senso” pode não necessariamente corresponder à consciência coletiva de um determinado país ou região.

Em países onde a legislação muda constantemente devido a fatores políticos, as regras do jogo nunca são as mesmas por muito tempo. O que hoje é permitido ao negócio pode ser proibido amanhã. E, no meio disso tudo, estão empresas tentando operar de maneira ética e legal, e profissionais tentando manter negócios vivos diante da incerteza de se atingir os resultados esperados.

Os negócios são feitos por pessoas. E, quando estamos lidando com mercados que enfrentam sanções ou conflitos, é preciso mais do que conhecimento jurídico. Você precisa ser sensível às pressões que esses indivíduos enfrentam. Esse é um dos aspectos menos falados, mas mais essenciais do direito internacional.

Empatia não é apenas um valor humano – é também uma ferramenta estratégica para a advocacia nos negócios. Acredito que advogados globais precisam se esforçar para entender que, do outro lado de um contrato ou de uma negociação, há alguém lidando com desafios que vão muito além do jurídico, e com visões de mundo e institutos jurídicos não conhecidos por nós.

Por exemplo, quando um cliente ou parceiro de negócios no Leste Europeu responde um e-mail com urgência ou hesitação, pode ser porque, naquela manhã, um novo regulamento mudou completamente as regras do setor, dado o contexto político de onde se escreve.

Isso é algo que não é ensinado, e que depende da atualização e curiosidade do advogado servindo tal região. Ou, quando um parceiro em algum país da África solicita ajustes em um contrato de fornecimento, pode ser porque há uma crise humanitária impactando a logística e os canais de entrada/saída dos produtos. E, se o advogado não compreender e incorporar essas realidades à sua rotina, dificilmente conseguirá oferecer uma solução que realmente funcione ou que supere as expectativas do negócio.

A minha experiência tem reforçado uma lição valiosa: a escuta ativa e a capacidade de manter a calma sob pressão são tão importantes quanto entender as leis de cada país. A calma sob pressão é o que nos permite tomar decisões com clareza. Às vezes, em mercados em crise, a melhor solução é apenas respirar fundo e entender o que realmente importa para todos os envolvidos. Mais do que isso, advogar para múltiplos países exige uma mentalidade de aprendizado contínuo, ou seja, que aquele conforto de atividades rotineiras, e temas de rotina, dificilmente acontecerão.

Neste desafio, não há espaço para arrogância – especialmente quando se está lidando com múltiplos sistemas jurídicos. Admitir que não se sabe tudo, e estar disposto a buscar a orientação de quem realmente conhece o mercado local, não é um sinal de fraqueza, mas um diferencial competitivo. Nesse sentido, a afinidade com as Ciências Humanas (como deveria ser esperado de todo advogado, em qualquer país do mundo) faz toda a diferença. É preciso entender o tecido social que molda cada legislação.

No meu caso, minha paixão pueril por história, sociologia e cultura tem sido um grande trunfo ao lidar com diferentes mercados, na medida em que torna os desafios prazerosos. Quem tem um olhar curioso sobre o mundo, e não apenas sobre a legislação, tem muito mais chances de sucesso nessa área.

Ao buscar ativamente as opiniões e a experiência de advogados locais, pude aprender e oferecer soluções mais eficazes. Não existe vergonha em não saber tudo; a chave está em saber onde buscar a ajuda certa (que, muitas das vezes, pode estar em nós mesmos) para então pode concluir sua análise jurídica e recomendá-la ao negócio.

Do lado de cá, a advocacia global pede sensibilidade para interpretar culturas, flexibilidade para navegar por realidades instáveis e inteligência emocional e humildade para construir pontes entre diferentes mercados e soluções. Do lado de lá, esses aspectos acabam moldando os advogados executivos e seniores como fortes, objetivos e de visão ampla na perspectiva dos seus clientes.

Inscreva-se no canal de notícias do JOTA no WhatsApp e fique por dentro das principais discussões do país!

Como Sheryl Sandberg bem colocou: “A verdadeira liderança surge quando você é capaz de conectar-se genuinamente com os outros, entender suas preocupações e guiá-los em momentos de incerteza”.

No fim das contas, advogar para o mundo não é apenas uma questão de técnica, mas de humanidade: o direito é vivo, dinâmico e, acima de tudo, humano. E os advogados que entendem isso estão um passo à frente na construção de soluções globais que realmente fazem a diferença.

Para finalizar, com base no tema do nosso artigo, preparei uma matriz na qual entendo que a sua aplicação fática vem ajudar – e muito – no exercício da advocacia global. Espero que o leitor goste.

Soft Skill

Facilidade quando existe

Dificuldade quando deixa a desejar

Escuta ativa

Compreensão real das necessidades dos clientes e parceiros

Falta de contexto e soluções ineficazes

Empatia

Construção de relações de confiança e comunicação mais fluida

Conflitos culturais e dificuldades na negociação

Calma sob pressão

Decisões estratégicas mais assertivas em ambientes instáveis

Reações impulsivas e tomadas de decisão frágeis

Humildade

Capacidade de aprender com especialistas locais

Arrogância e resistência à colaboração

Adicionar aos favoritos o Link permanente.