Eduardo Bolsonaro articula com trumpistas o fim do Brasil dos últimos 100 anos

O golpe de 8 de janeiro de 2023 ainda não acabou. Vai se repetir não como farsa, mas como tragédia. A fuga do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) para os Estados Unidos indica a preparação para um cenário em que não apenas a democracia e o Estado Constitucional formado pela Carta de 1988, mas também a noção de soberania e brasilidade construídas desde 1930, com o fim da República Velha, vão virar pó com as eleições de 2026.

Reeleito presidente dos Estados Unidos, Donald Trump busca claramente formar uma nova ordem internacional em que seu populismo de direita e supremacismo branco seja um dos polos globais num mundo a ser dividido com China e Rússia onde, porém, Washington ainda se manteria como centro do capitalismo global, com a hegemonia do dólar.

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Não se forma uma ordem sem aliados ideologicamente alinhados. Daí a necessidade de a extrema direita voltar ao poder no Brasil no próximo ano. Com Jair Bolsonaro (PL) inelegível e muito provavelmente condenado e preso, o bolsonarismo deve se acomodar com Tarcísio de Freitas (Republicanos) como candidato ao Planalto. O governador de São Paulo passa uma imagem de centrista que já foi comprada – seja por ingenuidade ou má-fé – pelo establishment econômico e até mesmo parte da elite intelectual.

No entanto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda tem chances de reeleição e, caso se candidate e conquiste um quarto mandato, será por margem mínima de votos, tal como foi sua vitória contra Bolsonaro em 2022. É plausível traçar um cenário em que uma eventual vitória de Lula não seja reconhecida pelos Estados Unidos sob Trump, levando a uma situação de instabilidade político-econômica interna que seria apenas resolvida com a ruptura da ordem democrático-constitucional.

Estaríamos, assim, diante de uma Revolução de 1930 às avessas, marco fundador da busca por um Brasil menos oligárquico e, portanto, mais democrático; menos subserviente aos ventos do Norte e mais autônomo na sua condução da política externa; menos simulacro do Ocidente e mais em busca de um marco civilizacional único, fundamentado no orgulho da mestiçagem e sincretismo.

Por isso, as eleições de 2026 serão uma espécie de plebiscito sobre o futuro do Brasil. Sem um sucessor claro no comando da esquerda nacional, Lula depende de um quarto mandato para encerrar a carreira política sem aura de fracasso. Dele ou de qualquer outro candidato do campo democrático depende a continuidade de uma certa ideia de Brasil capaz de resistir às implicações socioculturais do bolsonarismo, dentre elas uma emulação do supremacismo branco trumpista no formato de nacionalismo cristão sectário, que renega as matrizes não europeias na formação nacional.

Desde os Estados Unidos sob Trump, o filho 03 pode vender a imagem de mártir perseguido pela suposta ditadura judicial liderada por Alexandre de Moraes a partir do Supremo Tribunal Federal (STF). Para além de possíveis sanções americanas contra o ministro, Eduardo Bolsonaro abriria as portas para um governo de extrema direita que nos tiraria dos Brics – bloco em que a China é o ator mais proeminente – para nos alinharmos automaticamente a Trump e sua nova ordem que faz o Ocidente retroceder a uma era pré-iluminista. Sai o constitucionalismo liberal em nome da ressurreição do fundamentalismo religioso.

Há pouco mais de um mês escrevi coluna neste espaço em que questionei como será a política externa brasileira de um governo de direita pós-Lula e os riscos para a soberania nacional de alinhamento automático a Trump. Na mesma linha, o assessor internacional da presidência e ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim afirmou no último domingo (23) em entrevista à jornalista Mônica Bergamo que o Brasil luta para não virar colônia na ordem internacional em transformação.

Sem o multilateralismo, prevalece a lei do mais forte, condição na qual o Brasil pouco pode competir internacionalmente considerando seu status como potência regional e mediana, distante do clube das grandes potências nucleares e militares. Assim, as peças do tabuleiro da política internacional e doméstica movem-se de modo que cada vez mais 2022 parece ter sido o último respiro da ordem constitucional de 1988, da democracia de 1985 e de uma certa ideia de Brasil formada inclusive sob períodos autocráticos desde 1930.

Nesse jogo, Eduardo Bolsonaro, apelidado de “Bananinha” pelo ex-vice-presidente Hamilton Mourão, é apenas um peão em que forças maiores não vão hesitar em nos transformar em “Bananão” – ou seja, um simulacro de República Velha, domesticamente sujeita a disputas entre lideranças agrárias, milicianas e religiosas, enquanto se sujeita internacionalmente a um neocolonialismo fascista.

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