Quaest põe em xeque centralidade de Lula em nova estratégia de comunicação

Com grande repercussão no dia político em Brasília, a pesquisa Genial/Quaest traz dados que confrontam diretamente a comunicação do governo, mesmo após a mudança no comando com a entrada de Sidônio Palmeira na Secretaria de Comunicação (Secom).

O novo ministro, que foi o marqueteiro de Lula na campanha, deu um comando geral para o governo de que o presidente deveria ser o “motor de conteúdo” e, assim, apareceria mais. A pesquisa divulgada nesta quarta-feira (2/3) traz, porém, uma questão que mostra que o “motor” do governo pode estar falhando.

Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas

Exatamente 50% dos entrevistados disseram que as aparições de Lula têm piorado a percepção sobre o chefe do Planalto, um indício de que expor mais o presidente pelo menos neste primeiro momento está tendo efeito negativo. Para não se ter dúvida do dado, 31% dizem que o presidente ajuda a melhorar a percepção e outros 13% disseram que não muda nada.

Fadiga de material

O levantamento também mostra outro problema da nova estratégia de comunicação: ela parece não estar sendo eficaz. Metade dos entrevistados acha que o presidente tem aparecido menos e não mais, como Sidônio gostaria. E, para piorar, a percepção de que o noticiário está mais negativo cresceu substancialmente e é espalhada entre as diferentes formas de consumo de notícias, seja televisão, redes sociais e sites/portais.

Apesar de os dados serem ruins para a política de comunicação do governo e evidenciarem uma “fadiga de material” com a imagem de Lula, uma análise mais detida evidencia uma questão central: não tem comunicação que resolva problemas de outra natureza, que precisam ser resolvidos com medidas corretas e não propaganda.

Comunicação não reduz inflação

A própria pesquisa traz a resposta sobre onde está o principal problema: a economia de forma geral, mas principalmente a inflação. Apesar de tecnicamente estar em pleno emprego, a Quaest também mostra uma percepção de maior dificuldade de encontrar trabalho. E registra que 81% dos entrevistados perceberam uma diminuição no poder de compra, mesmo considerando que os salários têm subido acima da inflação oficial — o que conversa muito com o impacto da disparada dos alimentos.

Nesse contexto de uma percepção negativa sobre a economia, o desafio para o governo é ainda maior. Parte do problema decorre da incerteza dos investidores com os rumos da política econômica, o que tem mantido o dólar em patamar muito elevado e forçando o Banco Central a uma política monetária altamente restritiva, que reduz a confiança com o futuro.

Só que uma comunicação excessivamente pró-ativa, preocupada em gerar fatos positivos o tempo todo, reforça os temores de que o governo não vai aceitar uma necessária desaceleração da atividade para esfriar os preços. Na prática, isso se traduz em uma queda menor do dólar do que poderia ter ocorrido no período e de expectativas de inflação seguindo desancoradas e em níveis acima do teto da meta (4,5%).

Esse equilíbrio entre azeitar a comunicação de modo a melhorar a percepção de governo sem jogar areia na engrenagem da gestão econômica ainda não foi alcançado. E o resultado efetivo é a manutenção de um alto nível de incerteza — ainda que parte relevante disso, é necessário dizer, se deva também aos ventos internacionais.

Lula não cumpre promessas?

Outra evidência das dificuldades que o governo está tendo na comunicação e em resolver o problema de “fadiga de material”, mesmo após o freio de arrumação colocado com a vinda de Sidônio, é a perda de confiança no presidente Lula. Para 71%, ele não está conseguindo cumprir as promessas de campanha, um sentimento que vem crescendo.

Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email

O dado chama atenção porque, mesmo entregando boa parte do que foi prometido na campanha — como a valorização do salário mínimo, o fortalecimento do Bolsa Família e a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil —, a percepção dos eleitores ainda é a de que o governo não está cumprindo promessas. E, pior, 47% já consideram que Lula é “mal-intencionado”, dado que tem piorado com o tempo.

Havia uma expectativa de que, após a posse do titular da Secom, em janeiro, a comunicação adotasse uma lógica mais eleitoral, voltada para informar melhor sobre as ações realizadas. Os dados da pesquisa, nesse contexto, indicam que a estratégia ainda não produziu impacto, se é que terão.
Como a política viu a pesquisa

Entre lideranças partidárias no Congresso, o consenso foi o de que a pesquisa mantém sinal amarelo em relação às chances de reeleição do Lula. Enquanto a base governista mantém otimismo com a melhora no quadro a partir dos próximos meses, sobretudo pela isenção do IR, parte expressiva do centrão já começa a ver os indicadores de desaprovação como algo estrutural.

Nesse sentido, o foco dos partidos do centrão está menos em debater com Lula troca de ministérios e mais em discutir formas de facilitar o caminho da direita. Não à toa, o resultado da pesquisa veio acompanhado da definição de Arthur Lira na relatoria do projeto de isenção do IR na Câmara.

Mais do que uma escolha que afasta o cenário de a proposta avançar sem compensação, o nome do ex-presidente da Câmara foi uma costura feita pelo presidente do PP, Ciro Nogueira, que quer usar a influência na relatoria para tentar diminuir o protagonismo do Planalto com a medida.

Nessa quinta-feira (3), o senador, que é um dos mais próximos do centrão do presidente da Câmara, Hugo Motta, deve apresentar os detalhes de uma proposta alternativa enviada ao governo nas sugestões sobre compensação.

Um dos poucos dados indiscutivelmente positivos para o governo na Quaest desta quarta-feira indica que o modelo proposto pela equipe econômica do governo tem o aval do eleitor, inclusive o imposto mínimo de alta renda. O dado já aparecia em pesquisas internas e agora está claro em um levantamento mais amplo, o que pode reduzir a margem política de alteração.

Ainda assim, a condução de Lira à frente do projeto mais importante do segundo biênio do mandato de Lula pode indicar mais obstáculos na narrativa que o governo tenta colocar de pé sem dividir os louros com o Congresso.

O centrão de Lira ainda mantém a impressão de que o ex-presidente Jair Bolsonaro deve tumultuar o cenário registrando a candidatura e apostando em um filho na vice-presidência. Mas a aposta de continuidade nos indicadores de reprovação do governo deve jogar mais pressão para o ex-mandatário abrir caminho à outra alternativa — embora este não seja o cenário de momento mais provável.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.