Haddad retoma centralidade do crescimento econômico em discursos

Bombardeado internamente no governo, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, está novamente modulando seu discurso para dar uma roupagem mais próxima à das teses petistas.

No fim do ano passado e início deste ano, o chefe da economia ainda estava dando ênfase à necessidade de esfriar a economia para combater a inflação e ajudar a política monetária. Mas nos últimos dois dias Haddad trouxe de volta ao repertório a necessidade de crescimento econômico, inclusive como veículo para viabilizar o equilíbrio fiscal exigido pelo mercado financeiro.

A ênfase nesse tópico ocorre em um momento em que o governo busca recuperar popularidade e no qual o cenário de qual será o tamanho da desaceleração da economia levanta dúvidas também sobre como o Planalto vai reagir.

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Nos últimos dias, liderado pelo ministro da Secom, Sidônio Palmeira, o Planalto tem feito uma ofensiva de comunicação, como o pronunciamento de ontem do presidente Lula para anunciar o primeiro pagamento do Pé-de-Meia e mais medicamentos gratuitos na Farmácia Popular, e de sinalizações sobre medidas que devem ser adotadas, a mais recente é a liberação do FGTS dos demitidos que aderiram ao saque-aniversário.

Ainda que as iniciativas estivessem discutidas há tempo, o momento de anúncios como a liberação do FGTS está atrelado à leitura de que é preciso recuperar terreno na opinião pública. E de outro lado também revela uma estratégia de buscar garantir que a economia não caia para um ritmo muito abaixo do que o governo considera ser o potencial de crescimento do país, em torno de 2,5%.

Interlocutores da área econômica vinham defendendo a tese de que o governo não sairia estimulando a atividade em caso de um PIB muito mais baixo. Mas a vida real da política mostra que a velha máxima de que o “seguro morreu de velho” está sendo aplicada e o governo está se precavendo contra uma desaceleração mais intensa, inclusive modulando o discurso para deixar claro que a estratégia é moderar e não travar o crescimento.

Ao retomar a centralidade do crescimento econômico como estratégia de política econômica e fiscal, o risco que Haddad corre é de cada vez menos ser visto como o goleiro ou o zagueiro que chuta a bola para a arquibancada para afastar o perigo da área e cada vez mais ser associado a interesses políticos, seja para viabilizar a reeleição de Lula, seja para se cacifar como a alternativa ao atual presidente ou mesmo buscar outro cargo. Essa preocupação tem crescido no mercado e se intensificou nos últimos dias após as últimas sinalizações do governo.

A mudança de postura de Haddad, ao menos em público, ocorre em meio às negociações da reforma ministerial. Na última semana, cenário de mudança com Haddad sendo deslocado para a Casa Civil chegou a ser discutido no Planalto, de acordo com o relato de fontes ouvidas pelo JOTA. Lula teria até participado da reunião, mas a articulação não foi para a frente, pelo menos até o momento.

O nome de Haddad no ‘coração’ do governo foi uma ideia sugerida a Lula por figuras do centrão como o presidente do PP, Ciro Nogueira, e o ex-presidente da Câmara, Arthur Lira, ainda no ano passado. Seria um movimento lido pelos partidos do centro como positivo e de disposição do governo a discussões de propostas mais pragmáticas na agenda petista, na lógica de parlamentares, o que poderia facilitar conversas de aproximação para 2026.

O diálogo construído pelo titular da Fazenda na interlocução com a política é um fator mencionado. E que ganha mais peso diante das reclamações sobre o atual titular da pasta, Rui Costa, em relação à disposição de discutir com o Congresso e coordenar ações dos demais ministérios.

Mesmo que permaneça onde está, o que é o cenário mais provável neste momento, o destino de Haddad também pode ser impactado pelos cálculos de Lula sobre 2026, especialmente o limite de desincompatibilização de candidatura, previsto para ocorrer até o fim de março do ano que vem.

Em 2022, a candidatura de Haddad ao governo de São Paulo, mesmo derrotada, foi lida como um movimento importante para o presidente da República sair vitorioso na disputa ao Planalto na capital paulista. Haddad também foi um dos artífices para a viabilizar a costura que envolveu a ida de Geraldo Alckmin para a vice-presidência de Lula.

O titular da Fazenda pode não estar no melhor momento dentro dos embates propositivos do governo, mas até quem é adversário dele dentro do PT reconhece que Haddad deve seguir ocupando um papel importante na formulação política, diante de uma conjuntura externa mais desafiadora.

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