Governo ignora inflação e dobra aposta em indicadores econômicos em balanço da gestão

Com clima de campanha eleitoral, o evento de balanço das ações de dois anos de gestão Lula mostrou um governo tentando convencer a população de que a percepção negativa sobre a economia mostrada nas pesquisas não é corroborada pelos dados.

O material elaborado pela Secom de Sidônio Palmeira, com versão impressa e em vídeos apresentados na manhã de quinta-feira (3/4), começa com o slogan “Brasil, país da prosperidade” e elenca a melhora do país no ranking internacional do PIB, a alta real do salário mínimo, a queda do desemprego e a expansão da indústria.

Sobre inflação, nenhuma palavra. Uma omissão bastante eloquente sobre o problema que tem desmontado a popularidade do governo nos últimos meses e cujo enfrentamento envolve medidas amargas, como a alta de juros e a diminuição do ritmo de alta dos gastos, que têm reduzido a confiança de empresários e consumidores.

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No discurso relativamente curto para o padrão Lula, os “feitos” econômicos do governo também tiveram espaço substancial. E não houve nenhuma menção ao desafio inflacionário que se consolidou a partir do segundo semestre.

É verdade que o esforço de combate à inflação é, principalmente, responsabilidade do Banco Central. Mas ainda assim, o governo falhou no esforço para mitigar o impacto do indicador no bolso da população. Foi o caso de iniciativas relacionadas ao preço de alimentos, como a política de estoque regulatório e até mesmo a redução do imposto de importação anunciada.

Sendo assim, foi como se o governo tentasse esquecer que o problema existe e que o mais importante para o país é olhar para os outros resultados, ainda que parte da escalada de preços tenha origem no sobreaquecimento da economia (fato admitido pelo ministro Fernando Haddad), derivado do expansionismo fiscal excessivo na janela entre o segundo semestre de 2023 e a primeira metade de 2024.

A lógica de empurrar o tema para debaixo do tapete faz sentido quando se enxerga o evento como uma ação de marketing político, comando para ordem unida da base petista (inclusive com apelo nacionalista para contrapor o bolsonarismo) e tentativa do governo de recuperar a narrativa no debate público.

Mas também se justifica diante da avaliação interna do governo de que a inflação só dará algum refresco mais relevante a partir de maio, mantendo a rota de aceleração em 12 meses até o próximo mês.

O governo sabe que o tema dos preços vai ser uma dificuldade constante para a percepção da população, considerando um cenário de desaceleração do IPCA e estabilização em patamares pelo menos dentro da banda de tolerância da meta de 3% (que vai até 4,5%). É que, ainda que alguns alimentos devolvam parte da alta ocorrida nos últimos meses, dificilmente o retorno ao patamar anterior ocorrerá. O mesmo vale para outros itens, especialmente para os serviços.

Há um aumento do custo de vida que é permanente e tem sido percebido como piora nas condições da população, especialmente da classe média, que não é diretamente impactada pela política de reajuste real do salário mínimo. O exemplo de Joe Biden tem vindo à memória de muitos interlocutores do governo.

Não à toa, o aumento da isenção do Imposto de Renda se torna uma aposta cada vez mais relevante para a estratégia do governo. Foi citada nos materiais impressos, nos vídeos e também no discurso de Lula. O impacto na renda disponível da classe média parece ser relevante, como mostraram os exemplos que o governo tem mostrado de classe média, como professores e outros profissionais, como motoristas.

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Como a medida é só para 2026, porém, por mais positiva que ela esteja sendo considerada nas pesquisas, o efeito na sensação de bem-estar só ocorrerá quando os bolsos de dez milhões de contribuintes tiverem um dinheiro extra.

Até lá, o governo vai reforçar a disputa política e brigar palmo a palmo na narrativa, investir nas comparações econômicas com o governo Bolsonaro e explorar flancos estritamente, como a fissura no discurso de patriotismo de um ex-presidente que batia continência para a bandeira americana na frente de um Donald Trump que taxa o Brasil e o mundo.

O que parece claro a esta altura do mandato, inclusive, é que o governo decidiu reforçar a aposta na polarização para chegar a 2026, abandonando de vez o esforço de sinalizar para a chamada frente ampla. A ausência de nomes de peso de centro no evento simboliza isso.

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